Resenha de livro: Caçando Eichmann, de Neal Bascomb

Caçando Eichmann de Neal Bascomb (Rio de Janeiro: Objetiva, 2010, 383 pp.)

Há mais de 50 anos atrás, Adolph Eichmann, um ex-oficial nazista fugitivo, foi seqüestrado num subúrbio de Buenos Aires próximo à sua residência na Argentina por agentes do Mossad, o serviço secreto israelense. Logo após, foi julgado e condenado à morte em Jerusalém por sua contribuição ao holocausto, nesta que foi a primeira e única aplicação da pena de morte em toda a história de Israel. Os relatos dessa operação, contudo, somente vieram à tona há pouco tempo. Sabe-se hoje, por exemplo, que a operação não foi promovida por agentes privados, como alegado por algumas autoridades da época, mas que possuía o aval oficial de David Ben Gurion, Primeiro-Ministro de Israel e um dos líderes do movimento sionista. Neal Bascomb, inspirado em alguns desses documentos recém divulgados, bem como em diversas de suas entrevistas, aborda em sua obra os detalhes e a logística desse marcante evento da história, que posteriormente foi trabalhado por Hannah Arendt no livro Eichmann em Jerusalém.

O livro se destaca por abordar não somente os elementos fáticos que caracterizaram a operação, mas igualmente o aspecto psicológico dos indivíduos e agentes envolvidos. Neal Bascomb nos mostra um cenário com os agentes do recém-criado Mossad, suas histórias e motivações pessoais, sua angústia após a captura de Eichmann, ao saberem se encontrar nos mesmos aposentos de um dos maiores gerentes da “solução final” e do genocídio dos judeus, e a tensão dos diversos momentos em que a operação quase fracassou por pequenos detalhes. O autor também aborda a história de guerra de Eichmann, detalha as ações que perpetrou na Hungria, sua fuga após a invasão soviética, seu período de clandestinidade até a chegada na Argentina, o amor por sua mulher e seus filhos – que o leva a trazê-los para o país – bem como sua moderada vaidade ou a sua paranóia de ser algum dia finalmente encontrado. Trata-se de um relato fascinante, que aproxima o leitor dos bastidores da diplomacia e da espionagem da Guerra Fria.

Algo que o livro não aborda é a questão da legalidade da operação. O jurista internacionalista Francisco Rezek, ex-Ministro de Relações Exteriores e Juiz da Corte Internacional de Justiça, classifica este tipo de ação pelo nome de “abdução internacional”, sendo uma variante ilegal da extradição. Rezek cita, em sua obra, Direito Internacional Público, três famosos casos de abduções internacionais: a abdução de Adolph Eichmann na Argentina, em 1960; a do Coronel Antoine Argoud em Munique, na Alemanha, em 1963; e a de Humberto Alvarez-Machain, no México, em 1990. Após a abdução de Eichmann, o Conselho de Segurança das Nações Unidas adotou uma resolução no sentido de que esse tipo de ação constituía uma violação à soberania dos Estados e uma ameaça à paz internacional, e que o governo de Israel deveria promover uma “reparação adequada” ao governo da Argentina. Conforme Rezek, a única forma de reparação adequada seria, neste caso, o retorno do indivíduo ao Estado de origem.

A abdução internacional seria, portanto, por sua própria natureza, incompatível com o direito internacional, por constituir uma violação ao princípio da soberania. Esse era o meu entendimento antes de ler a presente obra. Contudo, o livro de Neal Bascomb me obrigou a rever esse posicionamento. É um fato que, nesses anos que seguiram o pós-guerra, não havia nenhum interesse por parte da comunidade internacional de encontrar, julgar e condenar criminosos de guerra. O lema que se reproduzia era apenas um: esqueça. Tal como um paciente em luto, a sociedade alemã buscava legar ao recalque as memórias dos horrores cometidos na Segunda Guerra.

Diversos eventos simbólicos demonstravam essa dimensão profunda da sociedade. Criminosos de guerra eram recebidos de braços abertos em diversos países, como na Argentina de Perón, ou nos Estados Unidos, onde muitos oficiais nazistas foram integrados à CIA. Na República Federal da Alemanha, o Chanceler Konrad Adenauer também estava mais preocupado com a estabilidade e a integração européia do que com a perseguição de nazistas. Apenas alguns poucos indivíduos, como o promotor Fritz Bauer – responsável pelos processos de Auschwitz, e cuja audaz contribuição na captura de Eichmann é relatada no livro – se preocupavam com um princípio fundamental que foi legado pela Segunda Guerra, e que justificou a criação de todos os Tribunais Penais Internacionais subseqüentes: a idéia de que há certas ações que são inescusáveis, independente de terem sido levadas a cabo pelo cumprimento de ordens de superiores, pelo fato de constituírem crimes contra a humanidade, e aqueles que perpetraram esses crimes devem ser devidamente processados e condenados.

É pouco provável que Eichmann teria sido levado à justiça caso não fossem as ações do Mossad na Argentina em 1960. Juan Domingo Perón não possuía nenhum interesse de julgar criminosos de guerra. Pelo contrário, nesse período fugitivos nazistas eram recebidos de braços abertos na Argentina, sua vinda era inclusive incentivada – conforme indicam documentos liberados recentemente – e muitos passaram a integrar a burocracia estatal após sua chegada. Tudo nos leva a crer que, caso não fossem as ações de Israel, um dos maiores criminosos de guerra do Século XX, e um dos maiores encarregados “solução final da questão judia”, teria permanecido impune. Seu julgamento foi um evento marcante para que o mundo voltasse novamente suas atenções para o genocídio da Segunda Guerra, e se lembrasse de um fato que muitos se esforçavam em esquecer.

Além disso, o julgamento de Eichmann também levantou um importante questionamento acerca da natureza do mal. Hannah Arendt aborda este tema principalmente em dois de seus livros: Eichman em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal, e Responsabilidade e Julgamento, sendo este uma resposta às criticas recebidas por razão de sua primeira obra.

Ocorre que Eichmann, apesar de ter sido demonizado, e ter incorporado em sua figura, durante o jugamento, tudo o que o nazismo e o holocausto representavam, não era um monstro. Era simplesmente um homem, uma mera engrenagem de uma máquina. Eichmann possuía uma aparência comum, em nada perversa, funesta ou sinistra, pelo contrário, possuía uma aparência de mediocridade, era um membro da baixa classe média, extremamente obediente e subserviente. Isser Harel, um dos agentes do Mossad que integrava a operação, inclusive se espanta ao vê-lo, e se questiona: “Seria este realmente o mensageiro da morte dos judeus, responsável pelo assassinato de seis milhões de pessoas?”. De fato, Eichmann era um burocrata. Em seu julgamento afirma: “Eu sentava em minha mesa e fazia o meu trabalho”. Alegava não odiar os judeus, mas meramente cumprir as ordens de seus superiores. O julgamento de Eichnmann é importante, pois nos lembra das imensas atrocidades que podem ser cometidas em nome do argumento da necessidade do cumprimento de ordens.

Segundo Hannah Arendt, há um Eichmann em todos nós. A banalidade do mal significa a incapacidade do ser humano de pensar, de questionar, que produz uma massa de homens incapazes de formular um juízo crítico, integrantes de sistemas totalitaristas. Conforme a autora, “os grandes perpetradores do mal são aqueles que nunca se lembram, porque nunca se envolveram na atividade de pensar, nada pode retê-los, porque sem recordações eles estão sem raízes.” É neste sentido que a autora aponta a importância fundamental da filosofia e da teoria política, que seria, portanto, a de nos tornar capazes de exercer constantemente as capacidades de julgamento, de consciência e de memória.

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