Resenha de livro: Contra o Fanatismo, de Amós Oz

Contra o Fanatismo de Amós Oz (Rio de Janeiro: Ediouro, 2004, 105 pp.)

Como curar um fanático? Esse é o título original do livro de Amós Oz, que foi traduzido na versão brasileira como Contra o fanatismo. O livro é a compilação de três conferências que o autor proferiu na Universidade de Tübingen, na Alemanha, em 2002: Como curar um fanático?, Israel e Palestina: entre o certo e o certo e O antídoto da imaginação. Nadine Gordimer, prêmio Nobel de Literatura de 1991, afirma no prefácio do livro que Amós Oz é “a voz da sanidade que ultrapassa a confusão, a mentira, a baboseira histérica e a retórica existente no mundo sobre os conflitos atuais.”

Amós Oz, membro atuante em Isarel da organização Paz Agora, se auto-denomina um “especialista em fanatismo comparado”. Para ele, a luta contra o fanatismo é uma batalha “entre aqueles que acreditam que o fim, qualquer fim, justifica os meios e nós, os demais, que acreditam que a vida é um fim em si, não apenas um significado.” Ou ainda que “é uma luta entre os que acham que a justiça – ou o que quer que se queira dizer com a palavra justiça – é mais importante do que a vida e aqueles para quem a vida tem prioridade sobre os outros valores, convicções ou crenças”.

Segundo o autor, a região de Israel na década de 40 era “cheia de profetas espontâneos, redentores e messias”. As pessoas iam para a região não para construir Jerusalém, ou serem construídos por ela, mas para se crucificar, ou para crucificar os outros, ou ambos. Haveria inclusive um transtorno mental reconhecido para classificar alguns desses indivíduos, uma doença designada “síndrome de Jerusalém”. Amós Oz assume que ele próprio era um fanático quando criança, e se deixou influenciar pelas ideologias de sua época. Afirma que acreditava ser detentor de inigualável verdade e superioridade moral sobre seus pares, e que atirava pedras contra patrulhas britânicas gritando “British, go home!” durante as intifadas judias, nesse tempo em que a Palestina ainda era uma região sob mandato do Reino Unido.

Em 1947 foi criado o Estado de Israel – uma iniciativa que contou com a participação do diplomata brasileiro Osvaldo Aranha – e que já nascia em meio à guerra. Entretanto, o autor repetidamente afirma que essa “não é uma guerra religiosa, uma guerra de culturas, não é uma discórdia entre duas tradições, mas simplesmente uma disputa de território real, que diz respeito a quem pertence essa casa”. Tal perspectiva busca repudiar a teoria do choque de civilizações, formulada por Samuel P. Huntington e adotada na prática por diversos países, segundo a qual haveria uma incomunicabilidade intrínseca entre as diferentes culturas. Para Amós Oz, o conflito israelo-palestino é um embate “entre o certo e o certo”, algo que intitula sua segunda conferência. É um conflito complexo, grave e real, mas que possui solução. O autor é extremamente crítico tanto à autoridade palestina quanto ao governo israelense, e diz que ao invés de sermos a favor de um dos dois lados, devemos ser antes de tudo a favor da paz.

Para Amós Oz, vivemos em uma sociedade maniqueísta, dividida entre o bem e o mal, branco ou preto. Essa generalização da infantilização da espécie humana e do desespero seria fruto da sociedade de satisfação e gozo imediato, hedonista e egoísta, que tenta criar a ilusão de felicidade duradoura. Trata-se, segundo ele, de uma sociedade que consome uma cultura baseada na idéia de “bandidos” e “mocinhos”, presente nos filmes de faroeste americanos, que busca imortalizar a noção de “foram felizes para sempre”. Poucos poderiam prever que o século XX desembocaria no século XI. Contudo, se o fanatismo é o sinal do desespero, Amós Oz aponta que a solução encontra-se na disseminação da esperança. Pelo menos entre os moderados, uma vez que somente os moderados de cada sociedade são capazes de combater o fundamentalismo.

Não devemos, contudo, nos ater apenas às manifestações óbvias do fanatismo. Amós Oz afirma que nos dias de hoje pode-se perceber atitudes fanáticas de antitabagistas, vegetarianos e até mesmo de pacifistas, e cita diversos exemplos. Até mesmo o antifanatismo pode se tornar um tipo de conglomeração fanática. O autor adota um ponto de vista pessimista sobre o fanatismo, e afirma que ele é mais antigo “que qualquer Estado, governo ou sistema político, que qualquer ideologia ou fé no mundo. O fanatismo é, infelizmente, um componente onipresente da natureza humana, um gene do mal”.

O fanatismo começa em casa. Atitudes fanáticas ocorrem sempre que tenta-se mudar um parente querido, em tese para o seu próprio bem. O fanatismo pode ocorrer entre os pais com seus filhos, entre casais, ou entre vizinhos. Pode ocorrer quando se tenta sacrificar-se em benefício do outro, para facilitar a realização do próximo ou da próxima geração. Em geral há sempre uma tentativa de controle, de manipulação, que quase sempre envolvem a culpa. O autor afirma que entre uma mãe que diz ao filho: “termine seu café ou eu te mato!”, e aquela que diz: “termine seu café ou eu me mato”, a primeira é certamente o menor dos males, pois a segunda obriga o seu filho a viver com culpa pelo resto de sua vida.

É um erro, portanto, tentar imaginar que o amor é aquilo que irá combater o fanatismo. É exatamente o amor que gera essa busca de modificar o outro. O fanático quase sempre é um sentimentalista, que prefere sentir a pensar. Osama Bin Laden, em seus discursos contra o ocidente, defendia claramente a necessidade de salvar o ocidente de práticas morais que considerava destrutivas. Não era necessário somente destruir o ocidente, era preciso convertê-lo para as práticas mais fundamentalistas do Islã, pois isto seria melhor para ele. Bin Laden, de uma certa forma, amava o ocidente. Por esse motivo, Amós Oz busca desvencilhar a idéia de amor do movimento pacifista, tendo cunhado a frase “faça a paz, não o amor”.

Mas Amós Oz não é na verdade tão pessimista assim para com as relações interpessoais. Se o fanatismo começa em casa, o antídoto também está em casa. Conforme dizia o poeta John Donne “nenhum homem é uma ilha”. Essa frase posteriormente serviria de incentivo para Ernest Hemingway, em sua obra Por quem os sinos dobram, que trata da Guerra Civil Espanhola e em que afirma que uma ameaça contra qualquer pessoa é uma ameaça contra todos nós, pois todos fazemos parte do continente humanidade. Amós Oz não chega tão longe. Para ele, de fato, nenhum homem e nenhuma mulher é uma ilha, pois todos temos a necessidade de vínculos com a família, os amigos, a cultura, a tradição, o país, a nação, o sexo ou a linguagem. Entretanto, a solução seria que as pessoas, em toda casa, toda família e toda conexão social, fossem de certa forma penínsulas: metade no oceano e metade no continente. Não seriam ilhas, tendo em vista que esse tipo de autonomia é impossível, mas manteriam seus vínculos sociais, sem buscar se alienar ao outro ou tentar modelar e obrigar o outro a adotar o seu modo de ser.

Outra solução para o fanatismo é a criatividade, motivo pelo qual Amós Oz intitula sua terceira conferência como O antídoto da imaginação. Se por um lado é extremamente sentimental, o fanático também peca pela falta de imaginação. O fanático em geral está profundamente influenciado pela conformidade e pela uniformidade, sendo facilmente suscetível a palavras de ordem – algo muito perceptível em regimes totalitaristas. Como exemplo o autor cita a famosa cena do filme A vida de Bryan, de Monty Python, em que, quando o “profeta” Bryan grita, indignado, para uma multidão de pessoas que insistiam segui-lo, dizendo “vocês são todos indivíduos!”, a multidão responde aos gritos: “somos todos indivíduos!”, exceto um deles, que responde: “eu não!”, e todos o mandam calar a boca. De fato, não haveria também um fanatismo nos cultos de multidões a líderes ou personalidades, como no caso de jogadores de futebol ou de casamentos de príncipes reais? Amós Oz também aponta a literatura como um remédio possível. Apesar de admitir que as coisas não são tão simples, ler e trabalhar a consciência é um dos maiores remédios contra o fanatismo, para o qual ele indica Shakespeare, Gogol, Kafka, William Falkner, ou o poeta israelense, Yehuda Amichai, e seu útil verso contra o fanatismo: “onde temos razão não podem crescer flores”. Algo que lembra o questionamento socrático.

Se nenhuma dessas soluções funcionarem, o único remédio possível para curar o fanatismo seria o senso de humor. Diz ele que nunca conheceu um fanático que possuísse senso de humor. Muitos possuem sarcasmo, em níveis até mordazes, mas não humor. O humor é a capacidade de rir de nós mesmos, como diz o autor: “O humor é relativismo, é a aptidão de vermos-nos como os outros podem nos ver, é a capacidade de entender que, por mais cheios de razão que estejamos e por mais terrivelmente equivocados que estejam os outros sobre nós, há sempre um certo aspecto disso tudo que é um pouco engraçado.” E, de fato, o humor pode ser uma arma extremamente eficaz para nos tornarmos imunes ao fanatismo. Para citar outro livro, por qual outro motivo em O nome da rosa, de Humberto Eco, fora exatamente o livro de Aristóteles sobre a comédia que os monges católicos se esforçaram tanto em esconder do conhecimento humano?

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