Náufrago e longe de tudo – Resenha de livro

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Jack London afirma: “As mais belas histórias sempre começam pelos naufrágios”. Com efeito, há algo que nos atrai nas histórias do alto mar. Desde “O Lobo do Mar”, escrito pelo próprio London; de “Os Lusíadas” de Camões ao poema “Navegar é Preciso” de outro luso, Fernando Pessoa; de “Os Trabalhadores do Mar”, escrito por Victor Hugo em seu retiro na Ilha de Guernsey, a “O Velho e o Mar”, escrito por Ernest Hemingway em seu retiro em Cuba: o mar e suas metáforas são uma força que cativa, há séculos, escritores, músicos e poetas, sonhadores e aventureiros. Como então não se apaixonar pelo livro “Tão Longe do Mundo”, de Tavae Raioaoa e Lionel Duroy?

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O livro conta a história real de Tavae Raioaoa, um velho pescador no Tahiti que naufragou durante quase quatro meses em pleno oceano pacífico. Tavae era o último sobrevivente de uma longa linhagem dos “reis dos mares”, homens que detinham um conhecimento excepcional dos oceanos e da vida marinha. Conheciam os ventos e as cheias, as correntes e as marés. Esse conhecimento tradicional, entretanto, está sendo paulatinamente perdido. Os jovens, influenciados pela cultura ocidental, têm deixado de lado seu modo antigo de vida. As antigas tradições têm sido abandonadas pela modernidade. Tavae compartilha essa angústia. Sua maior catástrofe, diz no livro, não foi o naufrágio pelo qual passou, mas sim saber que ele não teria um filho para sucedê-lo em suas tradições. “Tão longe do mundo”, desse modo, trata não somente do naufrágio de Tavae em meio ao oceano pacífico, mas também, e isso o faz de maneira belíssima, do naufrágio de sua cultura em meio à globalização.

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A história de Tavae tem algo que a difere de todos os outros contos de alto mar que citei acima: a sua profunda espiritualidade.

Na introdução de “Os Trabalhadores do Mar”, Victor Hugo afirma que, segundo ele, são três as lutas e os obstáculos (o autor utiliza a palavra grega “anake”, ou seja, fatalidade), que oprimem dos homens no mundo: a religião, a sociedade e a natureza. A primeira ele aborda em seu livro “O Corcunda de Notre-Dame”, a segunda ele aborda em “Os Miseráveis” e, a terceira, a natureza, ele aborda no livro em questão. Isso se assemelha às três fontes principais de sofrimento humano que Freud lista no texto “O Mal-Estar na Civilização”: a impotência diante das forças da natureza, o mal estar inerente às relações sociais e o sofrimento do corpo, que está inexoravelmente fadado ao fracasso, ao envelhecimento e à morte. O livro de Victor Hugo não é o único a abordar as histórias de alto-mar dessa forma, como uma luta entre o homem e a natureza. Essa mesma abordagem pode ser percebida em outros livros, como em “O Velho e o Mar” de Ernest Hemingway ou em “Moby Dick“, de Herman Melville.

O livro de Hemingway é um dos livros que situam a relação entre o homem e o mar como uma forma de combate entre homem e natureza. O protagonista não somente é afligido pela opressão da natureza, mas também pela opressão da velhice. Ele é atormentado pelas lembranças do passado, da força que outrora teve, mas que já se esvaiu. A sua batalha contra o mar é não somente uma batalha contra a natureza, mas também a sua última batalha contra o seu corpo. Sua luta é um grito que busca dizer ao mundo que não se esgotaram todas as suas energias, que ele ainda possui forças para viver, para seguir em frente, e se recusa a aceitar a própria morte. Ainda que também um livro belíssimo, se insere, assim, numa visão típica da cosmologia ocidental e judaico-cristã, de ver a natureza como um objeto a ser dominado e controlado. Talvez seja essa a razão pela qual nós ocidentais desejamos tanto domar a natureza. É uma forma de tentarmos, talvez, inutilmente, enganar a morte.

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Não é essa a mensagem que encontramos em “Tão Longe do Mundo”, de Tavae. O livro contém uma mensagem profunda de espiritualidade. O que há de mais belo no livro são as conversas de Tavae com Deus e com os espíritos de seus ancestrais – ainda que, com estes últimos, tivesse vergonha de conversar, uma vez que já teria se convertido ao Cristianismo. Ele sobrevive ao seu naufrágio sim, por conhecer a natureza, e saber as técnicas corretas de pescar o peixe necessário à sua sobrevivência – o chamado peixe mahi-mahi, conhecido entre nós como o dourado-do-mar. Mas, até mesmo ao pescar o peixe, ele mantinha antes com ele um diálogo mental, pedindo desculpas, justificando que era preciso matá-lo para poder sobreviver.

A natureza, para Tavae, não é um objeto a ser conquistado. Tudo o que recebe da natureza é por ele considerado uma graça, uma dádiva divina. Mesmo os obstáculos e desafios pelos quais passa em seu naufrágio, não são considerados uma desgraça, mas uma provação divina, um desafio de Deus para que ele provasse que era digno da linhagem dos “Reis dos Mares”, ele, um dos seus últimos representantes vivos. É um exemplo de como a fé é uma fonte de fortaleza para os seres humanos, que conseguem, por meio dela, vencer todas as provações do mundo. É a fé de Tavae que o possibilitou a sobreviver ao naufrágio do oceano pacífico. E é essa mesma fé que o dá forças para manter as suas tradições, náufragas no mar da globalização, que as torna desnecessárias.

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“Tão Longe do Mundo” é leitura obrigatória para os apaixonados pelas histórias marítimas. O meu próximo livro na lista de leitura também é baseado em uma história verídica de alto mar: “A Expedição Kon-Tiki”, de Thor Heyerdahl, que conta a história da travessia que buscou simular uma viagem de jangada da América do Sul até a Ásia, para comprovar a possibilidade de que a Polinésia fora colonizada por indígenas sul-americanos.

Obs.: As imagens foram tiradas pela fotógrafa norueguesa Sofie Olsen. Apesar de também ser uma cultura austronésia, não são os pescadores do Tahiti, dos quais Tavae fazia parte. Trata-se do povo Moken, da Birmânia e da Tailândia. Entretanto, acredito que servem bem para ilustrar a história de Tavae. O povo Moken, assim como os Reis dos Mares do Tahiti, são um povo cujas tradições estão sendo abandonadas devido à globalização e à influência ocidental. Antes verdadeiros nômades do mar, hoje os mais jovens preferem viver permanentemente em terra firme, deixando de lado os modos de vida tradicionais.

Fonte: BBC Brasil.

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/07/130716_galeria_nomades_mar_cc.shtml

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Um comentário sobre “Náufrago e longe de tudo – Resenha de livro

  1. Excelente artigo, Pedro! Gostei da comparação com “O velho e o mar”. Não sabia que a visão do homem e a natureza se assemelhavam na culutra judaico cristã.

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